domingo, 2 de fevereiro de 2014

Sandman



"Se isto não é literatura, nada mais é"

Hoje em dia, é estranho pensar que Sandman estava terminando justamente quando eu estava começando a curtir histórias em quadrinhos. Não que isso tenha alguma importância, claro. Afinal, eu parei de distinguir quadrinhos dos outros tipos de mídia impressa há muito tempo - sobretudo por causa de Sandman.

Não, só vim a conhecer Sandman cerca de cinco ou seis anos depois da série ter terminado de ser publicada originalmente lá nos Estados Unidos. Quando li Vidas Breves - o primeiro arco que li da saga e unicamente por isso a considero a minha favorita - vivia o melhor momento do que eu chamo de "época clássica da minha vida", ou seja, meus últimos três anos da escola regular. Não que eu não venha a ter momentos melhores no futuro, mas é aquele negócio, "a inocência, uma vez perdida, não pode ser recuperada".

Vidas Breves era simplesmente a melhor HQ que eu já tinha visto na vida. O texto era comparável a... porra, qualquer outra coisa extraordinariamente boa.

Como eu podia nunca ter ouvido falar daquilo? Afinal, do alto da minha arrogância juvenil, eu já me considerava um macaco velho nas histórias em quadrinhos (estava enganado, é claro. só era macaco velho neste quesito se comparado aos meus colegas de escola, só isso)

Foi só em 2005 que eu e o Senhor Morpheus fomos devidamente apresentados. Graças à Editora Conrad, que relançou a série original num formato totalmente de luxo (ui!) e com um preço exorbitante para a época - e para um "gibi" como a grande maioria dos não aficionados costuma chamar os quadrinhos. Lembro que paguei sessenta paus na época e fiquei até um pouco receoso em chegar em casa e admitir pra minha mãe que tinha gasto aquilo tudo - em casa, dinheiro nunca deu em árvore.  É claro que minha mãe não falou nada, como sempre. No máximo, deu de ombros como quem diz "o dinheiro é seu, você é quem sabe.
A Conrad prometia lançar um encadernado daqueles a cada quatro meses, completando assim as dez edições. Só me restava torcer para ter sempre a grana disponível quando isso acontecesse.



Sandman é, de longe não só minha HQ favorita, mas a minha saga favorita em qualquer mídia. Pra mim, foi um divisor de águas no que diz respeito à leitura.
A grande maioria das histórias seriadas de sucesso na cultura pop - seja uma série televisiva, uma antologia de livros, uma saga cinematográfica ou até mesmo uma novela de TV - têm algo em comum que geralmente se torna um problema: escravas do mercado, enquanto estão gerando bons lucros, seus autores tendem a alongá-las até o público se cansar e focar o interesse em outra coisa. Neil Gaiman e seu Sandman - assim como Bill Watterson e seu Calvin & Haroldo - afirmou categoricamente que "toda boa história tem começo, meio e fim. E Sandman é uma boa história". Sendo assim, apesar da série ser uma das mais vendidas do mercado de quadrinhos americanos, Gaiman a finalizou na edição 75.

Desde que iniciei este blog, há pouco mais de três anos, sempre soube que faria um post sobre a obra-prima de Neil Gaiman. O que me impedia era sempre uma espécie de intimidação feita pela própria obra. Afinal, como escrever um texto curto que fizesse jus a algo tão bom?

Não dá, pensei. E estava certo.

Havia outro problema. Tudo o que poderia ser dito, dissecado, analisado, pensado e esmiuçado sobre Sandman já tinha sido feito. E nenhuma dessas análises faz jus ao trabalho de Gaiman na sua maior criação.

Então, decidi não dizer, dissecar, analisar, pensar e nem esmiuçar. Assim como não vou fazer sinopses insossas sobre cada um dos arcos de Sandman - apenas pelos seus títulos (Prelúdios & Noturnos, A Casa de Bonecas, Terra dos Sonhos, Estação das Brumas, Um Jogo de Você, Fábulas & Reflexões, Vidas Breves, Fim dos Mundos, Entes Queridos e Despertar) você já conclui não se tratar de uma história comum). Tudo isso, você encontra em milhares de outras fontes. E, se fizer isso, o único conselho que posso dar é o seguinte.

Leia Sandman. Depois, tire suas próprias conclusões. Sandman é obra de arte pura - e histórias em quadrinhos têm a peculiaridade de terem potencial tanto para a arte da escrita quanto para a arte visual - e obras de arte atingem diferentes pessoas de diferentes maneiras.

Se este meu texto te despertou algum interesse, a obra de Gaiman é relativamente fácil de encontrar em livrarias ou lojas virtuais, embora não as edições da Conrad (essas, só em sebos virtuais e a preços inacessíveis a meros mortais). A Panini adquiriu os direitos da publicação no Brasil há alguns anos e relançou a obra em encadernados gigantescos. São quatro volumes com a história completa, com uma média de cem reais por cada uma.

Confie em mim quando digo: vale cada centavo.

Teleute

Ah, uma última coisa. Este é o último post do blog. 

Ninguém mais lê isso aqui já há algum tempo. O curioso é que o público feminino do blog sempre foi MUITO maior do que o masculino e se esse sucesso com as mulheres se refletisse também no mundo real, eu iria viver meus dias assobiando e cantarolando por aí.

Minha vida está mudando - vou tentar ser um produtor ao invés de apenas um consumidor de cultura pop - e meu foco a partir de agora será outro. Ou outros.
Não vou parar de escrever, é claro. A diferença é que agora vou fazer outras coisas também. Só não vou escrever mais aqui.


That's all, folks.


Augusto Fernandes Sales

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