sábado, 27 de abril de 2013

Negócios de Família


"Você se dedica à sua família? Bom. Porque um homem que não se dedica à sua família nunca será um homem de verdade"


Já disse algumas vezes por aqui que não saberia definir, ao certo, qual é O meu filme favorito de todos os tempos. Se me esforçar, talvez consiga listar, digamos, dez ou doze títulos, mas no que se refere a escolher um único filme e dizer "é esse!", fica bastante complicado para mim. Geralmente essa escolha pode variar de acordo com o meu humor do dia. Ou a minha empolgação. Ou qualquer coisa parecida, então não, não sei dizer ao certo qual é o meu filme favorito de todos os tempos.
Contudo, um que por várias vezes encabeçou essa lista é o favorito de muita gente que gosta de cinema. Difícil usar outros termos para O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972) que sejam diferentes de (sorry, guys!) "foda" ou "um puta filme". Assim como Casablanca, Cidadão Kane e ...E O Vento Levou, O Poderoso Chefão é presença constante naquelas listas feitas por revistas especializadas, sites de internet ou mesmo críticos de cinema.




Don Corleone: - Nós nos conhecemos há muito tempo, mas essa é a primeira vez que você vem me pedir conselho ou ajuda. Eu não me lembro qual foi a última vez que você me convidou para uma xícara de café, mesmo a minha esposa sendo madrinha da sua única filha. Mas vamos ser francos. Você nunca quis minha amizade. E você temia ficar me devendo um favor.
Bonasera: - Eu não queria me meter em problemas.
Don Corleone: - Eu entendo. Você encontrou um paraíso na América. Você tem um bom negócio, fez uma boa vida. A polícia te protege e há as leis. Por isso você nunca precisou de um amigo como eu. Agora você vem e diz "Don Corleone, faça justiça". Mas não me pede com respeito. Não oferece sua amizade. Nem mesmo pensa em me chamar de Padrinho. Você vem à minha casa no dia do casamento de minha filha e me pede pra matar... por dinheiro.
Bonasera: - Eu te peço justiça.
Don Corleone:  - Isso não é justiça. Sua filha está viva.  Bonasera: - Então faça-os sofrer. Como ela sofre. Quanto eu devo te pagar?
Don Corleone: - Bonasera. Bonasera. O que eu fiz para que me tratasse com tanto desrespeito? Se você tivesse vindo como amigo, esses vagabundos que arruinaram a vida de sua filha estariam sofrendo nesse exato momento. E se um homem honesto como você tivesse inimigos, eles seriam meus inimigos. E eles temeriam você.
Bonasera: - Seja meu amigo... Padrinho?
Don Corleone: - Bom. Algum dia, e talvez esse dia nunca chegue, eu pedirei que você faça um serviço para mim. Mas até esse dia, considere essa "justiça" como um presente pelo casamento da minha filha.

Vi O Poderoso Chefão - uma das poucas transposições de um título original para o português que realmente deram certo, embora se o longa se chamasse O Padrinho também teria ficado adequado - relativamente tarde na vida, se levar em consideração que gosto (gosto, não amo) de cinema desde, sei lá, os oito ou dez anos de idade. Acho que comprei o DVD quando tinha por volta de vinte e um anos. A minha curiosidade quanto ao filme era elevada ao quadrado com o fato de que ocupava, na época, a primeira posição na lista dos 250 melhores filmes de todos os tempos do site The Internet Movie DataBase (hoje o primeiro colocado é Um Sonho de Liberdade, de 1994). Lembro que vi os dois primeiros filmes em uma madrugada de sábado para domingo, seguidos.

De fato, fodástico é o termo mais adequado para O Poderoso Chefão. Hoje, já tendo lido o livro original, posso afirmar que o maior trunfo do diretor Francis Ford Coppola foi ter seguido à risca os detalhes o roteiro feito por ele e Mario Puzo e não ter se precipitado em enxugar a história para encaixar tudo em um filme de duas horas e meia. Isso pode ser comprovado com o fato de que foram feitos dois filmes para incluir tudo o que havia no livro.
O segundo fator que faz de O Poderoso Chefão ser o que é hoje em dia é a força, não só da história, mas do personagem. Don Vito Corleone, apesar de ser uma espécie de anti-herói, é extremamente carismático e cheio do que eu chamo de "contradições que fazem sentido". O termo não é tão complicado quanto parece. Don Vito, mafioso ou um "big shot" como aparece bastante no filme, prioriza a família. Apesar de ser averso a políticos, usa exatamente desse artifício para se dar bem no mundo em que vive, no qual alianças e inimizades andam praticamente de mãos dadas.

Sollozzo: - Bene, Don Corleone. Eu preciso de um homem com amigos poderosos. Preciso de um milhão de dólares em dinheiro. Preciso, Don Corleone, de todos os políticos que você carrega no bolso, como trocados.
Don Corleone: - Qual é a parte da minha família?
Sollozzo: - Trinta por cento. No primeiro ano seu lucro poderá ser de três, quatro milhões de dólares. E pode aumentar.
Don Corleone: - E qual é a parte da Família Tattaglia?
Sollozzo: - Meus cumprimentos... Eu cuido da Família Tattaglia, tiro da minha parte.
Don Corleone: - Então... eu recebo trinta por cento pelo financiamento, por proteção legal e influência política. É isso que está me dizendo?
Sollozzo: - Exato.
Don Corleone: - Por que eu? O que fiz pra merecer tamanha generosidade?
Sollozzo: - Se considera um milhão de dólares como um mero financiamento... te salut, Don Corleone.
Don Corleone: - Eu disse que o receberia porque ouvi dizer que você é um homem sério e que merece ser tratado com respeito. Mas tenho que dizer "não" e deixe que eu explique as minhas razões. De fato eu tenho muitos amigos na política, mas eles deixariam de ser amigos se soubessem que meus negócios são drogas, ao invés de jogos, que consideram um vício inofensivo. Mas drogas são um negócio sujo.
Sollozzo: - Não, Don Corleone...
Don Corleone: - Não faz diferença pra mim o que um homem faz para viver, entenda. Mas os seus negócios são um pouco arriscados.
Sollozzo: - Se o que lhe preocupa é a segurança do seu dinheiro, os Tattaglia irão garanti-la.
Santino: - Espere, está dizendo que os Tattaglia vão garantir o nosso investimento sem...?
Don Corleone: - Espere um minuto! Eu tenho uma fraqueza pelos meus filhos e os mimei, como pode ver. Eles falam quando deveriam ouvir. De qualquer forma, senhor Sollozzo, o meu "não" é definitivo. Eu o parabenizo pelos seus novos negócios e tenho certeza que se dará bem e boa sorte a você. Especialmente se seus interesses não entrarem em conflito com os meus. Obrigado.
Don Corleone:- Santino! Venha aqui. O que há de errado com você? Acho que está ficando de miolo mole com toda aquela comédia que está desempenhando com aquela garota! Nunca diga a alguém de fora da Família o que está pensando novamente. Agora vá.
 O elenco escolhido para levar O Poderoso Chefão do livro para as telas também é algo à parte. Marlon Brando já era um astro na época, mas era o único. O que dizer de um filme que revelou Al Pacino, Robert de Niro (que interpretou um jovem Don Corleone em O Poderoso Chefão - Parte II, de 1974), James Caan, Robert Duvall, John Cazale e Talia Shire? Visto hoje, é impossível imaginar outro ator como Don Corleone sendo outro que não Brando.
Se levar em conta a descrição dos demais personagens do livro, também fica claro que a escolha dos atores foi feita com bastante cuidado. James Caan como Santino Corleone é um bom exemplo disso. Simonetta Stefanneli como Apolonia, na sequencia siciliana do filme, é simplesmente a descrição exata da personagem do livro.
Michael Corleone: - Meu pai não é diferente de qualquer outro homem poderoso, como um presidente ou um senador
Kay Adams: - Sabe o quanto ingênuas são as suas palavras, Michael? Presidentes e senadores não matam pessoas.
Michael Corleone: - Oh. Quem está sendo ingênua, Kay?

O Poderoso chefão é, provavelmente, o filme com o maior número de caras badass da história do cinema. Além do próprio Don, podemos citar Santino, Tom Hagen, Clemenza... e os antagonistas, Sollozzo, Capitão McCluskey. Ainda não vi nenhuma outra produção que rivalize nesse sentido.

O filme narra a existência da Família Corleone entre o período de 1945 a 1955. No início, vemos que Don Corleone é o cabeça de uma das "Cinco Famílias" de Nova York que coexistem e estão por trás de todo o crime organizado. Durante a festa de casamento de sua filha, fica claro que Don é tão respeitado quanto temido, embora seja um verdadeiro padrinho para aqueles que conquistam sua amizade. Essa dualidade pode ser sintetizada no personagem de Tom Hagen que, quando criança morava nas ruas e foi acolhido por Don, que se tornou uma espécie de pai para ele. Adulto e formado advogado, Tom era o consigliere dos Corleone e possuía eterna lealdade à Família.

O poder de Don Corleone, assim como a sua preocupação com seus entes queridos e afilhados fica bem explícita na sequência em que Tom Hagen vai à Califórnia para negociar uma troca de favores entre seu patrão e um figurão do cinema. As consequências da recusa do cineasta a negociar com Don resultaram em uma das cenas mais emblemáticas da história do cinema, aquela em que o diretor acorda com a cama manchada de sangue.

O primeiro ponto de virada do filme, o que define tudo o que acontece posteriormente se dá no momento em que o traficante Virgil Sollozzo procura os Corleone em busca de influência e proteção. Ao ouvir a recusa do velho, Sollozzo tenta assassiná-lo, na esperança de que seu filho, Santino, seja "mais sensato". Contudo, Sollozzo não leva em consideração que Sonny é o mais emocionalmente instável dos filhos Corleone e que, dessa forma, não leva a questão como negócios e parte para a vingança pessoal. Michael, o Corleone com menos chances de se envolver nos negócios da família entra na questão e isso define o que acontece no futuro de toda a série.

Kay Adams: - Michael, você nunca me disse que conhecia Johnny Fontane!
Michael Corleone: - Claro! Quer conhecê-lo?
Kay Adams: - Oh, sim! Com certeza!
Michael Corleone: - Meu pai o ajudou com sua carreira.
Kay Adams: - Como ele fez isso?
Michael Corleone: - Vamos ouvir a música...
Kay Adams: - Me conta, Michael. Por favor.
Michael Corleone: - Bom... quando Johnny estava começando, ele assinou um contrato pessoal com um líder de uma banda. A sua carreira começou a deslanchar mais e mais e ele quis sair, mas o líder da banda não deixou. Bem, Johnny é afilhado do meu pai. Então meu pai foi até a esse líder da banda e ofereceu dez mil dólares para deixar Johnny sair, mas ele disse não. No dia seguinte, meu pai voltou lá, só que dessa vez acompanhado por Luca Brasi. Em menos de uma hora, o sujeito assinou o contrato em troca de um cheque de mil dólares.
Kay Adams: - Como ele fez isso?
Michael Corleone: - Meu pai fez-lhe uma oferta irrecusável.
Kay Adams: - Como assim?
Michael Corleone: - Luca Brasi pôs uma arma na sua cabeça e meu pai disse que ou o seu cérebro ou a sua assinatura estariam no contrato.
Kay Adams: - ...
Michael Corleone: - É uma história verdadeira.
Kay Adams: - ...
Michael Corleone: - É a minha família, Kay. Não sou eu.

Outro aspecto interessante mas pouco lembrado sobre esse filme é a trilha sonora de Nino Rota - às vezes, erroneamente creditada a Ennio Morricone, que não tem nenhuma relação com o filme. Transmite toda a atmosfera ao mesmo tempo tensa e familiar do longa, assim como o "ar de interior" nas cenas passadas na Sicília.

Como disse no começo desse texto, não creio que eu tenha UM filme favorito, mas alguns.

Esse é um deles.

O Poderoso Chefão - The Godfather, 1972 - cena


Nenhum comentário: