sábado, 30 de março de 2013

Contos de King


Gosto de contos. Eles nada mais são do que histórias sem a pretensão de serem sagas. São momentos na vida das pessoas, e não toda a sua existência.

Acabei de ler a coletânea de contos chamada Ao Cair da Noite (Just After Sunset, no original - editora Suma de Letras, 2011), de Stephen King, um dos meus (dois) escritores favoritos. Tenho alguns livros dele aqui, mas essa é a primeira seleção de histórias curtas que eu leio do cara. Aliás, foi exatamente de um conto de King que tirei o nome desse blog. Reg Thorpe é um dos personagens centrais de A Balada do Projétil Flexível, publicada na coletânea Tripulação de Esqueletos, que por sinal não encontro para comprar em lugar nenhum. Contrariando meus costumes, acabei lendo A Balada em um arquivo PDF baixado da internet. É um conto genial que fala, basicamente, sobre loucura.

Em Ao Cair da Noite lemos bons contos sobre terror psicológico e eventos misteriosos, mas nenhum daqueles de tirar o sono de ninguém. A impressão que se tem é que King escreveu a maioria deles pura e simplesmente pelo prazer de contar boas histórias e não para figurar na lista de Mais Vendidos do New York Times (embora, sem dúvida, ele desejasse isso). Fazendo uma comparação grosseira, seria algo como a volta de Schumacher na Fórmula-1.
Alguns dos contos de Ao Cair da Noite têm referências claras a outras obras de King, embora eu não tenha notado nenhuma referência direta, nem mesmo nos seus comentários sobre cada conto no final do livro. Em Ayana, por exemplo, encontramos o tema principal de À Espera de Um Milagre, ou seja, a questão envolvendo "o poder de curandeiros misteriosos (e não charlatães)". Ou no último conto do livro, chamado de No Maior Aperto, na cena em que o protagonista se vê preso em um banheiro químico trancado, temos a mesma sensação de claustrofobia do personagem Andy Dufresne em uma das últimas cenas do filme Um Sonho de Liberdade. Contudo, ao ler a nota de King sobre esse último conto, fica a impressão de que ambas as histórias não são relacionadas.
O roteiro de Willa, primeiro conto da coletânea é um tanto clichê e não surpreende muito no final. O título e a idéia inicial de A Corredora (no que se refere a correr) me inspiraram a escrever o post O Corredor, embora uma coisa não tenha nada a ver com a outra.
Ao ler O Sonho de Harvey fica a impressão de que é o texto que King escreveria aos quinze anos de idade e que lhe renderia bons comentários de seu professor de, sei lá, literatura. Dá pra imaginar o tutor dizendo "esse moleque tem futuro". Ou algo do tipo.
Posto de Parada é o típico conto em que a gente se imagina como o protagonista. Ao ler o desenrolar dessa pequena história, notamos que qualquer um de nós gostaria de ter as mesmas atitudes dele, mas no fundo sabemos que na realidade as coisas geralmente são bem diferentes.
A Bicicleta Ergométrica é um bom conto. As Coisas Que Eles Deixaram Para Trás, baseado nos eventos do 11 de setembro (que li mesmo em 11 de setembro, só que de 2011) também é bom, mas acho que meio que travei com ele por estar no mundo do 11 de setembro. Consigo gostar de filmes, por exemplo, sobre a Segunda Guerra Mundial justamente por não ser daquela época. É como se tudo aquilo fosse ficção. Talvez se eu nascesse em 2026, é possível que gostasse mais desse conto.
Tarde de Formatura é terrível... e não estou dizendo que seja assustador. É um conto ruim mesmo, sequer consegui ler até o final. E olha que é curto.
Por outro lado, N. é genial. De longe é o melhor conto do livro, bastante parecido com A Balada do Projétil Flexível. Na contracapa (ou melhor, naquela aba que sobra na capa, que serviria de marcador de página se não amassasse quando fazemos isso, como é o nome daquela coisa?), a sinopse sobre esse conto diz o seguinte: No conto "N.", o transtorno obsessivo-compulsivo de um indivíduo em contar um círculo de pedras  - são sete ou oito? - é a única coisa que mantém a humanidade protegida do desconhecido.
Para O Gato dos Infernos e The New York Times a Preços Promocionais Imperdíveis, temos (ou melhor, eu tive) a mesma impressão da de O Sonho de Harvey: são as histórias que King teria escrito na adolescência se participasse de um concurso de redação de terror. Não quis dizer que são ruins - porque não são - mas são bem simples.
Por fim, Mudo, o antepenúltimo conto do livro também é imprevisível e um daqueles não muito raros casos em que ficamos aliviados com o final, embora no fundo tenhamos a ciência de que estamos sendo muito pouco cristãos ao pensar assim (quanto a isso não tenho problema: nunca fui cristão).

Ao Cair da Noite não é um livro que vai mudar a sua vida e nem fazer você refletir sobre nada, mas é ótimo para ser lido quando queremos, pelo menos por algum tempo, esquecer do resto do mundo.

Recomendo.

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