segunda-feira, 25 de março de 2013

A Milha Verde

Na curta história deste blog, falei algumas vezes de adaptações de livros que viraram filmes. O Poderoso Chefão, Um Sonho de Liberdade e O Silêncio dos Inocentes são alguns exemplos dos que já apareceram por aqui. É bem verdade que são raros os casos de versões cinematográficas que se equiparam ou superam os textos originais. Os três exemplos citados acima estão nessa lista.
Outro caso de filme que ficou tão bom - em alguns aspectos até melhor - do que o livro é À Espera de Um Milagre (The Green Mile, livro de 1996 e filme de 1999), de Stephen King. Originalmente, foi escrito como uma série em fascículos intitulada O Corredor da Morte, mas pouco tempo depois virou um único livro. É um dos mais originais de King, já que foge um pouco do estereótipo do escritor de (ótimas) histórias de horror.
Narrado em primeira pessoa, conta o estranho período do guarda Paul Edgecombe como encarregado pelas execuções na Penitenciária de Cold Mountain em 1932 (1935, no filme). A rotina de Edgecombe muda repentinamente quando recebe o prisioneiro John Coffey, um gigante condenado pelo assassinato de duas garotinhas. Naqueles dias, Paul sofria da pior infecção urinária de sua vida e mantinha seu emprego com o maior cuidado, já que o país passava pela terrível Depressão Econômica. Como se não bastasse isso, ainda tinha que tratar Percy Wetmore, um subalterno problemático, com luvas de pelica, já que o sujeito era sobrinho do governador do estado.
No mesmo dia em que recebe um condenado arruaceiro, Edgecombe é surpreendido quando Coffey cura sua infecção usando apenas as mãos. Incrédulo, o guarda passa a duvidar da culpa de Coffey, já que não vê sentido em Deus ter dado um dom daqueles para um assassino de crianças.
Eu disse anteriormente sobre a originalidade dessa história devido também ao fato de que não se trata de algo com um gênero bem definido. Contém alguns elementos de terror, drama, suspense e até mesmo um pouco de humor negro. O personagem de William Wharton - ou apenas Billy, The Kid - é totalmente perverso e louco, mas ao mesmo tempo é o contraponto humorístico da história. O epílogo também contém elementos dos quais eu nunca havia visto.
É possível dizer que o filme até supera o livro em alguns pontos. Possivelmente o mérito disso é do diretor Frank Darabont, que cinco anos antes havia adaptado Rita Hayworth and The Shawshank Redemption, outro conto de King, com a mesma competência (ambas as produções concorreram ao Oscar de Melhor Filme). Darabont retirou elementos que não eram extremamente necessários no filme, embora fossem indispensáveis na história de King. No livro, por exemplo, Paul é perseguido por um enfermeiro no asilo onde fica depois de velho. Edgecombe associa o tal enfermeiro ao Percy dos anos trinta, só que agora não tem como se defender.
Assim como é costume de muitos diretores, Frank Darabont também repetiu alguns atores de Um Sonho de Liberdade em À Espera de Um Milagre. O promotor que acusa Andy Dufresne no primeiro filme é um dos guardas da prisão do segundo e um dos prisioneiros de Shawshank interpreta o pai das garotinhas assassinadas em The Green Mile. Outro destaque em À Espera de Um Milagre é a música de Thomas Newman, meu compositor de trilhas sonoras favorito.
O elenco também é um caso à parte. Tom Hanks dispensa apresentações, mas quem rouba a cena mesmo é Michael Clarke Duncan como Coffey. Também estão no filme os bons David Morse, Bonnie Hunt, Patricia Clarkson, James Cromwell, Michael Jeter e o veterano Harry Dean Stanton - da genial cena de "walking the mile, walking the mile, walking the greeeen mile...".
Nos dias de hoje qualquer livro que venda mais que cem exemplares parece ser cotado para virar filme no ano seguinte. Mas uma história realmente boa que se torne um longa no mínimo no mesmo nível ainda é algo bem raro de se acontecer.
À Espera de Um Milagre - trailer

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