domingo, 3 de março de 2013

A História de Lisey

 (postado originalmente em maio de 2012)
Acho que devia ter uns doze ou treze anos quando me deparei com O Cemitério (Pet Sematary), o primeiro livro de Stephen King que li na vida. Tinha dezesseis quando voltei a lê-lo e uns vinte quando comprei a minha própria edição. De lá para cá, virei fã do cara e tenhos algumas coisas dele no que eu chamo de Minha Biblioteca Pessoal. Desde o originalíssimo À Espera de Um Milagre até o horroroso Os Olhos do Dragão. Mesmo assim, Pet Sematary sempre foi o meu favorito, com sua atmosfera de história provinciana, apesar de todo o horror presente no último 1/3 do livro.
Contudo, mesmo O Cemitério tem aquele clima de ficção. Depois de terminar de ler e ficar um pouco com saudade daquilo tudo - ora, vamos admitir: sempre que terminamos um livro do qual gostamos muito, ficamos com aquele aperto no coração parecido com o de despedidas - seguimos em frente.
O mesmo não aconteceu ontem, depois que terminei de ler Love: A História de Lisey, escrito por King em 2005. Apesar de, obviamente, ser uma ficção, tem-se a impressão que é um tipo de biografia do próprio escritor. Não só isso, mas também uma espécie de homenagem do sujeito à relação que tem com a esposa, a também escritora Tabitha King. Essa idéia pode ser, talvez, confirmada com a dedicatória do autor no início do livro, um simples "Para Tabby".
O fato de A História de Lisey ter mexido um pouco comigo justifica-se de maneira muito simples: apesar de ser fã do trabalho de King - assim como sou fã do trabalho de Neil Gaiman - de uma maneira muito íntima eu o invejo um pouco. Não pela grana, não pela fama ou nada tão mesquinho ou mundano, mas pelo talento. Desde muito jovem eu gosto de escrever e, se hoje tenho um pouquinho de técnica, não tenho absolutamente nada de criatividade. Zero. Além disso, Scott Landon, o falecido marido da protagonista de A História de Lisey, também é escritor - assim como vários protagonistas das histórias de King, como em O Iluminado ou em A Hora do Vampiro.
O modo como o autor retrata Scott Landon - ou até mesmo o mundinho particular dele - talvez seja um reflexo do próprio King. Para ser um escritor de sucesso, deve-se também ser um pouco louco. Ter um lugar para ir e buscar suas próprias histórias. Certa vez, no meu blog anterior a este, fiz um texto breve sobre a aparente necessidade de ser um mínimo excêntrico para se dar bem no mundo artístico (no sentido original da palavra arte). Só assim você poderá oferecer algo diferenciado, algo que toque profundamente a sensibilidade das pessoas, seja escrevendo, compondo canções ou atuando no teatro, por exemplo. No livro fica muito claro que é este o motivo do sucesso de Landon. Um pouco de loucura.
Pra um sujeito que insiste em entrar nesse mundo e não tem quase nada dessa excentricidade, é um pouco torturante a possibilidade de eu constatar que sou insuportavelmente normal. Não, normal não é a palavra. Comum. Isso sim me assusta.
O curioso é que King mostra o "lugar" de onde Landon tira seu talento e este lugar não parece ser diferente de, por exemplo, Nárnia ou o País das Maravilhas. Ou o Mundo das Fadas em Stardust. Ou o Condado em O Senhor dos Anéis. Ou quem sabe ainda a Fantasia em A História Sem Fim.
O mundo de onde todas essas histórias surgem parece ser o mesmo. A única coisa que muda é o modo como é visto por cada um. Para o Scott Landon de Stephen King, esse mundo é Boo'ya Moon.
A História de Lisey se passa em 2006, embora boa parte de tudo seja mostrado em flashbacks. Começa com a protagonista, viúva de Landon há dois anos, no escritório do marido encaixotando as anotações que ele deixou. Contudo, por intermédio de sua instável irmã, Lisey descobre que Scott fez uma espécie de coleção de fotos dos dois juntos em aparições públicas. Essas fotos fazem Lisey se lembrar de vários acontecimentos que havia bloqueado em sua mente, como um atentado contra a vida de Scott e fatos obscuros e assustadores de quando ainda namoravam. Pra completar, Lisey começa a sofrer sérias ameaças contra a sua vida vindas de um antigo fã do trabalho de Landon.
Aos poucos, a viúva de Scott começa a crer que as memórias deixadas por ele talvez não tenham sido apenas coincidência. Scott tem um plano mesmo depois de morto.
Apesar de ter adorado o livro, A História de Lisey demora um pouco a engrenar. Mais de uma vez eu pensei em parar de lê-lo. As coisas começam a ficar interessantes um pouco antes da metade do livro, quando Lisey se recorda de quando Scott lhe contou sobre a sua infância. É aí que começa o verdadeiro terror.
É o menos superficial dos livros de King que já li. Deve ser lido com cuidado para não perder detalhes importantes na trama, algumas vezes presentes em uma única frase. Também mostra um King mais maduro, que aproveita a história para mostrar como é a vida de um escritor.
Como disse antes, tenho um pouco de inveja - mesquinha, é verdade - do talento de King. Mas ainda tenho esperanças de visitar Boo'ya Moon vez ou outra e poder contar as minhas próprias histórias.

Nenhum comentário: