sábado, 3 de novembro de 2012

Vertigem

Meu primeiro contato com a Vertigo, a linha de quadrinhos adultos da DC Comics foi por intermédio da revista de mesmo nome publicada pela Abril aqui no Brasil em 1995. Na época, ainda moleque, eu acompanhava as revistas de linha do Universo DC e fiquei fissurado pelas histórias "cheias de palavrões" de John Constantine & Cia. Comecei com o pé direito já lendo logo de cara Hábitos Perigosos, a melhor história do mago inglês. Contudo, a publicação do material americano por aqui fora do universo dos super-heróis era bastante conturbado na década de noventa e a Vertigo brasileira foi cancelada depois de apenas doze edições. Mesmo assim, Hábitos Perigosos - que serviu inclusive de inspiração para o filme Constantine (2005) estrelado por Keanu Reeves - ficou meio em stand-by no meu subconsciente à medida em que meu interesse pelas histórias regulares de sujeitos como Superman e Batman ia diminuindo.
Daí que, aos dezesseis anos, consegui de segunda mão umas edições de Sandman, do qual nunca havia ouvido falar, assim como não sabia que a série já havia terminado oficialmente seis anos antes. Tive uma tremenda sorte de ter em mãos uma saga completa do Mestre dos Sonhos, Vidas Breves. As tais edições eram da época em que a série era publicada pela Globo. Além dos números 41 a 49 da série mensal, na mesma época consegui as três edições especiais Orpheus, Homens de Boa Fortuna e O Som de Suas Asas (essas duas últimas faziam, na verdade, parte da série regular e a Globo resolver publicar como especiais).
No começo, demorei para entender bulhufas de Sandman, sobretudo porque achei confuso pra cacete! Quem era Delirium, aquela personagem que mesclava uma moradora de rua com uma adolescente drogada? Tudo que ela falava ao mesmo tempo fazia e não fazia sentido. É óbvio que para alguém que não faz idéia do que se trate Sandman, Vidas Breves não é a melhor história para se começar.
Entretanto, quando consegui terminar o primeiro número, quase devorei a edição seguinte. Delirium era na verdade mais ou menos o próprio conceito de delírio... ou melhor, era a responsável em cuidar do reino de delírio, o lugar aonde nossa mente vai quando estamos... delirando!

Putzgrila!!!

Assim que aceita esse fato, vai ficando mais fácil entrar no universo criado por Neil Gaiman. Vidas Breves começa com Delírio decidindo sair em uma espécie de busca para encontrar seu irmão desaparecido há mais de trezentos anos. Primeiro, ela pede ajuda a seu irmão/irmã Desejo - siiiiim, o/a responsável pelos nossos desejos. Ao ouvir a recusa deste, Delírio pede auxílio a Desespero, outra de suas irmãs. Para isto, Delirium vai até o reino de Desespero, um lugar realmente perturbador - assim como a própria Desespero, que também se recusa a ajudar Delirium.
Sandman me conquistou de vez - acredito que nesse ponto a série já tenha passado a ser a minha favorita de todos os tempos - quando Delirium vai ao Reino dos Sonhos pedir ajuda a... Sonho! O protagonista da série, responsável por cuidar e administrar mundo que visitamos toda vez que dormimos. Na verdade, Sonho é um dos Perpétuos, raça de seres que existem desde antes mesmo da criação dos Deuses - é necessário que eu diga aqui que, em Sandman todas as crenças, mitologias e religiões co-existem, assim como realmente acontece embora a maioria das pessoas discorde. Os Perpétuos são formados por Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delirium (em inglês, todos começam com a letra "D"). Toda a saga da série Sandman é baseada na existência desses seres, embora obviamente seja mais centrada em Sonho.
De qualquer forma, li Vidas Breves até o final, depois li de novo, depois de novo... para um sujeito que adora viajar quando a realidade está chata demais, o conceito de Mundo dos Sonhos e de outros reinos foi demais. O final, por mais perturbador que seja, beira a poesia. Se Hábitos Perigosos me apresentou ao mundo de Vertigo, foi Vidas Breves que definiu o que meu gosto por quadrinhos se tornaria muitos anos depois.

Mesmo assim, foi apenas em 2005 que minha curiosidade em saber como tudo começou em Sandman  passou a ser saciada. A Conrad assumiu o título e prometeu publicar a saga completa em dez encadernados que compilariam as 75 edições da série regular. Lembro que estava perambulando por Suzano, uma cidade a dez minutos de distância de casa, quando esbarrei com o primeiro encadernado, novinho, brilhando, na prateleira de uma revistaria. Embora estivesse com pouca grana, não hesitei: comprei Prelúdios & Noturnos, o primeiro volume de Sandman por impensáveis 60 paus na época! Já era de longe a mais cara HQ que eu tinha comprado na vida.
No interior, tinha um panfleto da Conrad com os próximos volumes e suas respectivas datas previstas para o lançamento. Segundo eles, a cada quatro meses um novo encadernado seria lançado. Tenho a série completa e o interessante nesse caso foi que nos três anos que levou para sair tudo, minha vida foi mudando junto com a existência dos personagens. É como se eu tivesse crescido junto com eles.

Ainda naquele ano de 2005, também li The Originals: Sangue nas Ruas, de autoria de Dave Gibbons, o artista responsável pelo conceituado Watchmen. Aliás, apesar de Watchmen não fazer parte oficialmente da Vertigo, já que foi lançado anos antes da criação do selo, foi nessa época que também comecei a acompanhar a compilação que saiu por aqui pela Via Lettera. Foi mais ou menos como Sandman, saía a cada quatro meses, ao preço de quarenta pilas.
Entrando cada vez mais na Vertigo e saindo aos poucos do mundo tradicional da DC, nesse ano comprei também Nas Ruas de Londres, uma coletânea de histórias fechadas de Constantine.

Em 2006, além de Estação das Brumas, Um Jogo de Você e Fábulas e Reflexões - volumes 4, 5 e 6 de Sandman, respectivamente - comprei o que seja talvez meu livro favorito, Stardust (Conrad, 2002), escrito por Neil Gaiman e Charles Vess. Stardust, que em 2007 virou adaptação para o cinema - tem uma história redondinha e se passa no Mundo das Fadas que aparece também em um capítulo de Os Livros da Magia. Além da história absolutamente poética e brilhante de Gaiman, as ilustrações de Vess não ficam para trás. Se existe uma definição de perfeito, ele se encaixa em Stardust - sobretudo na agora rara edição da Conrad, com tradução e edição melhores do que a Pixel lançou em 2007.

Falando em Pixel Media, em 2007 eles assumiram uma porrada de títulos da Vertigo e prometeram publicar tudo o que pudessem com qualidade. Embora isso tenha durado um tempo relativamente curto, não dá pra dizer que não tentaram. Foi através da Pixel que cheguei às excelentes Fábulas e 100 Balas. Tentei acompanhar Preacher também, mas dinheiro não dá em árvore, como você deve saber.

Mesmo assim, é inegável a boa qualidade das edições da Pixel no pouco tempo que ficaram com a Vertigo. Além de relançar material antigo de 100 Balas, publicaram algumas coisas inéditas na sua mensal Pixel Magazine e lançaram Fábulas em ordem cronológica. Foram eles também que pela primeira vez aqui no Brasil republicaram Hábitos Perigosos em um único encadernado. Em um último respiro na tentativa de sobreviver no mercado editorial de quadrinhos, tentaram relançar Sandman do começo com um formato de preço mais acessível, mas não conseguiu passar dos dois volumes de Prelúdios e Noturnos.

Com a ótima - e bem diferente - Os Leões de Bagdá, a Panini preparou o terreno para começar a publicar a Vertigo no Brasil em 2009. A começar, tiveram a sábia decisão de continuar 100 Balas e Fábulas de onde a Pixel havia parado, além de lançarem material inédito. A exemplo da Pixel Magazine, lançaram Vertigo, seu título mensal cheio de mixes de revistas mensais lá dos EUA, a maior parte de material inédito por aqui. Atualmente, a Vertigo já passa das 50 edições.

Particularmente, eu tenho acompanhado pouca coisa com alguma regularidade. Além da revista de linha, os encadernados de 100 Balas e Fábulas são os dois títulos que acompanho, mas o fato de não ter Preacher completo nunca me desceu direito pela garganta. É uma série que, cedo ou tarde, ainda vou ler inteira.
Desde 2010, a Panini tem republicado Sandman de novo, dessa vez com uns encadernadões (!!!!) que passam dos cem paus. Atualmente está no volume 3. Ótima oportunidade do povo mais jovem conhecer. A editora tem mantido um bom site com informações de seus títulos da Vertigo publicados nos últimos anos. Para quem se interessar:

http://hotsitepanini.com.br/vertigo/

Um comentário:

José Antônio (Jam) disse...

Vivendo e aprendendo... Não sabia que o filme "Constantine" tinha sido adaptado de uma história em quadrinhos, no caso, Hábtos Perigosos.