quinta-feira, 5 de maio de 2011

Sozinho

Apesar de já ter sido reprisado na Globo três mil e quinhentas e duas vezes (sendo duas mil e trinta e cinco na Temperatura Máxima) e, por isso não ser mais levado tão a sério pela maioria das pessoas, o filme Náufrago ainda é um dos meus favoritos. Vi já na época de seu lançamento nos cinemas brasileiros, em janeiro de 2001.
O tema do filme, uma pessoa perdida em uma ilha deserta após um naufrágio/acidente de avião, não é novo. Neste contexto podemos citar A Lagoa Azul, Robinson Crusoé, a série Lost, a série Roma, o primeiro Piratas do Caribe... até mesmo Homer Simpson já esteve perdido no mar. A diferença é que Náufrago é mais intenso no que se refere à sensação de isolamento. E mais sério também.
Chuck Noland (Tom Hanks), um dos responsáveis pela parte da logística da FedEx (o filme não é muito específico quanto ao cargo), leva uma vida razoavelmente promissora quanto ao futuro. Tem um bom emprego, namora com a garota que ama. Tudo bem que seu trabalho o obriga a estar sempre viajando, longe de casa, mas ao que parece é o que gosta de fazer.

O trabalho de Noland consiste em trabalhar o "controle do tempo" com os demais empregados da empresa especializada em entregas FedEx. Passa longos períodos longe de casa, Memphis, Tennesse, onde sua namorada Kelly (Helen Hunt) sempre está à sua espera. Talvez esse fato de estarem quase sempre longe um do outro faz com que Noland passe a considerar a idéia de que é hora de dar um passo maior no relacionamento dos dois.



 
No Natal, pouco antes de Chuck embarcar em um avião, Kelly lhe dá de presente um antigo relógio de bolso que fora de seu avô. Chuck retribui com uma caixinha que, todos imaginam, contém uma aliança de noivado.



"Volto em breve", diz ele.

O avião de Chuck fica perdido algumas horas dentro de uma tempestade e perde contato pelo rádio. Pouco depois, sofre uma pane e cai no mar. Noland milagrosamente consegue se agarrar a um bote salva-vidas e chega em uma ilha deserta.



O tema principal do filme começa a se desenrolar a partir daí. Pouco a pouco, a sensação de isolamento e impotência de Chuck em relação a tudo vai se tornando cada vez mais evidente. As dificuldades enfrentadas para abrir um simples coco. A falta que faz (e como!) as ferramentas mais comuns do dia-a-dia. Como diria Neil Gaiman em um de seus textos em Sandman: "Ferramentas são as mais sutis das prisões".
Chuck começa a fazer os cálculos e a considerar as remotas possibilidades de sair daquela ilha um dia. É um homem moderno que, subitamente, voltou aos tempos das cavernas.

Noland passa a interiorizar seus sentimentos, ao mesmo tempo que exterioriza seus pensamentos. Começa a se comunicar com seu "eu" interior, na imagem de uma bola de volley, um dos objetos que estavam no avião. Da mesma maneira, suas esperanças de voltar pra casa tomam a forma do relógio de bolso com a foto de Kelly e uma encomenda lacrada que fazia parte do carregamento do avião (assim como Wilson, a bola de volley).

Chuck fica quatro anos preso naquela ilha.

Embora a maioria das pessoas que curtem filmes já tenha visto esse, vou manter meu costume de não contar finais neste blog (os chamados spoilers, embora eu ODEIE esse termo). Mesmo assim, creio que as fotos e a citação que vou postar abaixo já digam muita coisa sobre como tudo termina.
Náufrago é um filme muito mais profundo do que muita gente imagina. Há várias curiosidades no filme em referência a outras obras (2001: Uma Odisséia no Espaço, por exemplo, filme favorito de Tom Hanks) , mas não vou falar de nada disso aqui. Meu lado cult é limitado e é assim que eu gosto que seja.
Além da competente direção de Robert Zemeckis, destaco também a música de Alan Silvestri, mencionada em um post sobre compositores de trilhas de filmes. Aliás, uma curiosidade a respeito disso é que essa trilha contém apenas vinte e poucos minutos, já que na maior parte do filme não há música nenhuma.








"Nós dois fizemos os cálculos. Kelly pesou as coisas e... soube que teria que me esquecer. Eu pesei as coisas e soube que.. a tinha perdido. Porque eu nunca ia sair daquela ilha. Eu iria morrer ali, totalmente sozinho. Iria ficar doente, ou ferido ou algo assim. A única escolha que eu tinha era quando, e como e onde iria acontecer. Então... eu fiz uma corda e subi no morro para me enforcar. Eu tinha que testar, sabe? Claro! Você me conhece. E o peso do tronco quebrou o galho da árvore, então eu... eu... eu nem mesmo podia me matar do jeito que queria. Não tinha o poder sobre NADA.
Foi então que veio esse sentimento, como um cobertor quentinho. Eu sabia, de alguma forma, que tinha que ficar vivo. De alguma forma. Tinha que me manter respirando. Mesmo quando não tinha motivos pra ter esperança. Toda a minha lógica me dizia que eu nunca mais veria esse lugar novamente. Então foi o que fiz. Fiquei vivo. Me mantive respirando. E um dia, minha lógica provou estar errada, porque a maré veio e me trouxe uma vela. E agora, eu estou aqui. De volta. Em Memphis, conversando com você. Tem gelo no meu copo. E eu a perdi novamente. Eu estou tão triste de estar sem a Kelly. Mas sou muito grato por ela ter ficado comigo naquela ilha. E sei o que tenho que fazer agora. Tenho que continuar respirando. Porque amanhã o Sol vai nascer.

Quem sabe o que a maré pode trazer?"

Chuck Noland



2 comentários:

brigida disse...

Simplesmente AMO esse filme!!! E essa fala do Chuck que você postou no blog é demais!!! Sempre me emociono ... Beijinhos

Augusto Fernandes Sales disse...

Beijos, italianinha!