domingo, 10 de abril de 2011

Viagens sombrias

Apesar de gostar muito de cinema, não acho que seja considerado cinéfilo. OK, ainda quero trabalhar na área (o que ainda está em um futuro muito distante, SE realmente vier a acontecer), mas cinéfilo não seria a palavra exata para me definir. Muita coisa considerada clássica ou cult e, portanto "obrigatoriamente" no repertório nos cinéfilos, críticos e profissionais da área, eu ainda não vi. Cidadão Kane. Operação França. Os Sete Samurais. Nunca vi um filme do Woody Allen, por exemplo.
Minha "trava" com filmes artísticos demais é a falta de verossimilhança presente na maioria deles. E não apenas com filmes, mas com livros também (basta ver meu recente post sobre Hamlet). É certo que boa parte do charme de coisas fictícias está exatamente na profundidade dos personagens, mas algumas produções com essa pegada artística pecam em situar esses personagens excêntricos no mundo real. OK, não é todo dia que vemos caras fantasiados de morcego lutando contra palhaços terroristas (meu filme favorito), mas os filmes excessivamente... hmmm... teatrais simplesmente não conseguem me distrair ou arrancar suspiros da minha sensibilidade (se é que ela existe).
Mesmo assim, há vários filmes nessa categoria que me despertam curiosidade. Donnie Darko era um deles. E vou te dizer uma coisa, adoro filmes/livros/quadrinhos que "viajam total". Muito provavelmente eu gosto disso porque talvez seja uma oportunidade de, apenas por algumas horas, cair fora desse mundo cretino onde vivemos atualmente, onde pais jogam filhas do alto de prédios e fanáticos religiosos atiram em crianças.
Alguns filmes que te fazem pirar a cabeça para longe dessa bola de lama chamada Terra-da-Vida-Real (na qual vivemos): Os Doze Macacos, 2001 - Uma Odisséia no Espaço, Missão: Marte, O Enigma do Horizonte, Alien, Predador, A Origem... a lista é imensa. Mesmo assim, alguns misturam viagem-com-excesso-de-arte, como é o caso de Laranja Mecânica. Desses eu não gosto.
Já tinha ouvido falar de Donnie Darko há muito tempo, mas apenas de nome. Se me perguntassem, talvez eu tivesse respondido que "deveria ser algum filme policial" ou coisa parecida. Minha curiosidade começou a se aguçar quando esse filme foi mencionado por um aluno durante a oficina de roteiro de HQ's que fiz na Quanta Academia de Artes, em 2009. Então, isso faria desse filme um filme nerd? E, sendo eu um quase-nerd, será que não iria gostar?
Há pouco, finalmente vi o filme. E, acredite, é uma viagem total.
Donnie Darko é um jovem com distúrbios mentais (ou o que as pessoas comuns chamam de distúrbios) atormentado pela visão de um coelho gigante. O coelho (chamado Frank) lhe diz que o fim do mundo será em 28 dias. Depois de escapar de um estranho acidente, Donnie passa a se interessar por física (aquelas teorias sobre "buraco-de-minhoca" que possibilitariam viagens no espaço-tempo. Mais nerd, impossível) enquanto pequenos atentados passam a ocorrer na vizinhaça. Não vou contar o que acontece, fico FURIOSO quando me dizem o final de algum filme que não vi. Mas se você é um dos meus, que gostam dessas coisas que te levam pra longe, talvez goste de Donnie Darko.
É preciso ter MUITO repertório para entender a coisa toda, assim como é preciso ter muito repertório para compreender filmes desse gênero. 2001 - Uma Odisséia no Espaço, por exemplo possui um final em que a interpretação depende de quem assiste (obviamente os roteiristas Stanley Kubrick e Arthur C Clarke  tiveram seu próprio ponto de vista, mas fica mais legal ninguém mais saber disso). De qualquer forma, essa questão de ter uma certa bagagem de conhecimento artístico/político/social/científico para entender essas obras por completo é muito comum. Donnie Darko não foge à regra.

Donnie Darko - Trailer
video

Entretanto, há outro lado. Pessoas MUITO cultas ficam um pouco chatas nesse sentido. Como levam seu conhecimento histórico muito a sério, levam o cinema muito a sério também. E se esquecem de que cinema, às vezes, só pode ser apreciado se NÃO for levado tão a sério. Veja os filmes do Tarantino, por exemplo. Em Bastardos Inglórios, ele pega um período negro da humanidade e brinca com isso. O general Maximus, de Gladiador realmente nunca existiu, mas isso não faz do filme uma porcaria. OK, muita coisa pode estar errada do ponto de vista histórico, mas será que também não seria um erro subestimar os responsáveis por fazer o filme? Será que em uma produção tão cara não houve o mínimo de pesquisa?
Acho que a arte (em todos os aspectos) pode ser melhor COMPREENDIDA se o apreciador tiver certa bagagem cultural. Mas não deve ser exclusiva. A arte não é apenas um meio de expressão, mas TAMBÉM uma forma de entretenimento.

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