terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Este lugar inumano cria monstros humanos

Nos últimos dias, depois de aaaaanos de espera, finalmente li O Iluminado, de Stephen King. Pelo fato de gostar do filme há muito tempo e por gostar das histórias de King há ainda mais tempo (desde a época da escola, zilhões de anos atrás), até que eu demorei bastante pra comprar esse livro.
Quando vi o filme, não havia entendido direito as razões de King não ter gostado. Aliás, não foi só isso que eu não entendi. Como é possível que ele não tenha curtido a "obra-prima" (odeio esse termo) O Iluminado, do gênio (odeio esse termo também) Stanley Kubrick e tenha gostado da fraquíssima versão cinematográfica de Pet Sematary?
Agora eu sei a resposta. Pet Sematary, apesar de ser um filme bem fraco, é bem mais fiel ao livro do que a adaptação de O Iluminado, que hoje em dia é considerado um clássico. Complicado isso.

A maioria das pessoas diz que "o livro sempre é melhor". Bom, eu concordo que, na maioria das vezes isso realmente é o que acontece, mas discordo sobre isso ser uma regra. À Espera de Um milagre, por exemplo, funcionou tão bem como filme quanto como livro. Talvez até melhor.

Não é o caso de O Iluminado. Como eu disse, sempre adorei o filme. Mas agora, gosto um pouco menos.

O livro é infinitamente melhor. Faz o filme parecer uma coisa feita às pressas, de qualquer jeito, sem nenhum cuidado com a história original. Mesmo a atuação de Jack Nicholson, vista como irretocável até então, me deixou algumas dúvidas, agora que conheço o personagem Jack Torrance original.

O Iluminado relata o período da família Torrance como responsável por cuidar do misterioso Overloock Hotel, nas montanhas do Colorado, durante os meses de inverno. Jack Torrance, ex-professor, escritor em crise criativa e alcoólatra em recuperação, sabe que o novo emprego talvez seja sua última oportunidade de enterrar de vez os erros do passado (uma agressão a um aluno que ocasionou sua expulsão da escola, os problemas com a bebida, o ferimento causado no filho durante uma crise emocional). Sua esposa, Wendy, sabe disso e acha que, talvez essa seja também a chance de salvar seu casamento. Apenas o filho único do casal, Danny, sente que há algo de estranho naquele hotel. Mas Danny não é uma criança comum. O garoto de seis anos consegue ler pensamentos, tem um amigo imaginário mais real do que teria qualquer outra criança e pode... prever certas coisas. Simplesmente sabe.
No dia da entrevista para o emprego, Jack fica sabendo pelo gerente do hotel que o antigo zelador (um homem com pouca instrução chamado Delbert Grady), alguns anos antes, não suportou o isolamento causado pelo inverno e teve uma crise nervosa. Matou a esposa, as duas filhas e depois a si mesmo. Será que Jack, com todos os seus problemas emocionais passados, seria a pessoa certa para o serviço? Felizmente (?), Torrance tinha os contatos certos e o emprego já era seu, embora contra a vontade do gerente do Overlook.
Ao chegar no local, no dia de encerramento das atividades do hotel, a família Torrance é apresentada ao cozinheiro Dick Halloran, que fica particularmente encantado com o garoto Danny. Mais tarde, o garotinho descobre que Halloran tem os mesmos dons psíquicos, embora em uma menor intensidade. Antes do cozinheiro ir embora com o resto dos funcionários do hotel, ele tem uma conversinha a sós com Danny. Uma conversa sobre dons e, principalmente sobre aquele lugar. De acordo com Halloran, eles, os "iluminados", são capazes de ver coisas que já aconteceram e prever acontecimentos que podem vir a acontecer. E alguns acontecimentos costumam deixar marcas nos lugares em que ocorreram, como fotos em uma revista, mas que não podem, de fato, machucar ninguém. Entretanto, parece haver algo a mais no Overlook Hotel. Halloran conta que uma camareira fora despedida por ter relatado ter visto algo na banheira de um dos quartos. E ele próprio, Halloran, já vira algumas coisas fora do comum naquele lugar.

Nas primeiras semanas, a família Torrance viveu dias felizes cuidando do Overlook. Wendy nunca tinha visto seu marido tão bem e realmente acreditava que as coisas ruins do passado poderiam ser finalmente esquecidas. Jack se sentia satisfeito em seu novo posto e Danny, depois de ter sentido a ameaça de divórcio pairando sobre os pais, curtia a felicidade junto ao casal.
Mas o hotel tinha outros planos para aquela família. E usaria o poder do garoto para cumprir seus propósitos.

Conforme o inverno avança e o isolamento total dos Torrance torna-se iminente, Jack começa a ter uma estranha obsessão pelo lugar. Remexe velhos documentos, pesquisa sobre os antigos proprietários. E, lentamente, passa a acreditar que Wendy e Danny talvez estejam tramando alguma coisa contra ele.

Assim como a maioria das histórias de King (das que eu li, é claro!), o ambiente familiar é bastante abordado nos primeiros capítulos. Proposital ou não, o escritor nos deixa à vontade na companhia dos Torrance, dos Creed (O Cemitério) ou dos Halleck (A Maldição do Cigano). Nós nos importamos se Danny está prevendo alguma coisa terrível para acontecer. Nos preocupamos se Louis e Rachel irão cuidar bem das crianças, agora que se mudaram para uma casa na beira de uma estrada movimentada. Depois de nos tornamos velhos conhecidos da família em questão, King passa a explorar os acontecimentos estranhos que, na maioria das vezes terminam mal, muito mal.

Há algumas outras similaridades entre uma ou outra história de King. Já vi o autor falar mal de Nova Jersey mais de uma vez. Uma foi em Pet Sematary e outra foi no doidíssimo conto A Balada do Projétil Flexível, publicado na coletânea Tripulação de Esqueletos (não acho esse livro de jeito nenhum!). Velhos traumas familiares também podem ser vistos com certa frequência nas histórias do autor.

Meu livro favorito de King é O Cemitério (já disse isso tantas vezes aqui que já devem estar de saco cheio!). Digamos, é O Iluminado escrito por um cara um pouco mais maduro. Alguns recursos usados no primeiro livro (pensamentos entre parênteses, por exemplo) são vistos com menos frequência mas com a mesma eficiência no segundo.
Mas não acho que o Overlook Hotel deva nada ao antigo cemitério mic mac.

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